NA DANÇA DA NATUREZA
- Lívia Borges

- 6 de dez. de 2019
- 3 min de leitura
Atualizado: 19 de mai. de 2024
Por Lívia Borges

Da observação dos fenômenos da natureza surge o conhecimento e a possibilidade de utilização de potenciais latentes. Ignorar suas leis, priva-nos de escolhas assertivas, seja referente aos fenômenos externos ou internos. A natureza de algo diz respeito à sua essência, constituição e expressão no contexto a que pertence. Da sabedoria milenar indiana, temos que o ser humano não é apenas o corpo ou a personalidade que exibe. Sua essência divina (atman) se reveste de diferentes envolturas (koshas), sendo a mais densa, o corpo físico, com o qual desfruta o mundo por meio dos sentidos.
Ignorando os diferentes envoltórios ou corpos que encobrem sua essência, pode viver uma vida miserável, mendigando afeto, bens, fama, prazeres e temendo perdê-los. Pode gastar até a última respiração na ilusão de reter algum deles. Mas o tempo e a morte são inexoráveis. Chegam, passam e transformam.
A busca do autoconhecimento por meio de qualquer um dos instrumentos, ciências e tradições abre- nos a possibilidade de conhecer mais profundamente uma parte desse revestimento corporal e emocional, necessário para a convivência harmônica e aceitar e curar os traumas ativos que estejam bloqueando potencialidades latentes. A outra parte, visa conhecer algo mais profundo, em uma instância superior da consciência, aquilo que permanece quando tudo se desvanece e muda. Aquilo que sempre foi, é e será o mesmo. Que sempre existiu e que representa a nossa verdadeira natureza.
A ocupação excessiva com o que é efêmero dificulta o acesso ao que é permanente. Faz parte do jogo da vida manter-nos ocupados, distantes do silêncio e da contemplação. Isso faz com que confundamos o real com o irreal. O que gostaríamos de ser e o que historicamente somos. Confundimos a autoria da ação, confundimos a nossa individualidade ora com os simbióticos relacionamentos, ora com a imagem idealizada de si mesmo. Tudo isso ainda distante do que efetivamente somos na dimensão espiritual.
Daí surge a necessidade do discernimento (viveka) para entender a natureza de si mesmo e de Si mesmo (atman). Mas o Si mesmo, longe de ser o ego narcisista, é a presença universal em toda a vida. Para viver essa experiência de não-dual (advaita), um trabalho precisa ser feito com o ego (ahamkara) para que não sabote a caminhada com desculpas, fingimentos e ignorância.
A vida tem suas leis e sua natureza intrínseca é energia (prana) e dharma, a substância que sustenta a vida, a virtude, o dever. Viver de acordo com o dharma é uma das metas do hinduísmo e do budismo e, com outras terminologias, é também do cristianismo, espiritismo, messianismo e outras tradições de diferentes matrizes. Todas trazem um código moral e ético como modelo a ser seguido e na essência os valores são os mesmos.
É preciso coragem para viver o dharma. A cada instante a vida traz desafios e a consequente ação adequada ao contexto. É preciso liberdade para seguir o dharma, pois às vezes ele vai nos conduzir para ações que desagradam e confrontam. Como assim? Estamos em um mundo de dualidades e cristalizar-se em uma única forma de agir não é liberdade, tampouco dharma.
Precisamos deixar de temer o que os outros pensam de nós, para agirmos adequadamente. Quando Cristo quebrou as mesas dos que violavam o templo sagrado para fazer comércio, não usou palavras carinhosas. Foi o mesmo Cristo que impediu que a mulher adúltera fosse apedrejada, como era o costume na época, e o mesmo que perdoou aqueles que o crucificaram. Não havia motivação egoísta, medo, atração ou repulsão. Havia adequação. Talvez seja válido revermos o nosso conceito de cultura de paz. Egos imaturos, mesmo aparentemente mansos e com palavras doces, violam a paz, permitem o avanço da violência, injustiça, mentira etc. O remédio amargo, inicialmente incômodo, depois promove a paz. Omitir-se e temer o conflito não é solução. Precisamos conhecer a natureza de nossas motivações, limitações, papel no mundo e a do contexto a qual precisamos agir, ainda que sejamos instrumentos.
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Texto de autoria da Psicóloga Lívia Borges, originalmente publicado no Guia Lotus Ano32, Nº 328, Outubro 2019.





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