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TRADUÇÃO E REVISÃO: TRAIÇÃO OU COAUTORIA?

Atualizado: Abr 11

Por Antonio Silvio Curiati


Introdução

Antes de entrar na apaixonante questão da tradução e revisão de textos propriamente dita, vamos proceder a ampla introdução multidisciplinar abordando a questão idiomática, pois se trata de premissa sem a qual as infindáveis facetas e nuances da tradução e revisão não podem ser sequer vislumbradas, quanto mais adequadamente compreendidas...


Os idiomas e a capacidade de expressão humana

O mais antigo idioma conhecido – o sânscrito – é também, provavelmente, o idioma primordial da humanidade, aquele do qual todos os demais derivaram e o único capaz de expressar a plenitude e a totalidade humanas, seja na dimensão física, seja na metafísica. Certas sutilezas humanas só podem ser expressadas e compreendidas por meio dele. Ouso mesmo dizer que o sânscrito é processado pelo hemisfério direito do cérebro, proporcionando, portanto, conhecimento direto da realidade expressada, sem necessidade de elaboração intelectual ou racional.


Tecnicamente falando, o sânscrito é considerado a protolíngua ou a língua-mãe apenas das línguas indo-europeias, mas Swami Vivekananda, expoente da milenar filosofia Vedanta no mundo moderno, afirma que dele se originaram todos os demais idiomas.

A razão nos leva a endossar tal afirmação, quando sabemos que o sânscrito possui 46 letras e fonemas, que abrangem todos os sons emissíveis pelo aparelho fonador humano, simplesmente o dobro da disponibilidade fonética da língua portuguesa! Alguns autores se referem a versões do sânscrito com 50 letras, como esclarecido nas transcrições a seguir, extraídas do clássico Autobiografia de um Iogue, de Paramahansa Yogananda (1893-1952), Summus editorial (São Paulo, 1981), na primorosa tradução de Adelaide Petters Lessa (mantida a grafia original):


Capítulo 2, nota nº 6, páginas 31 e 32:


(...) O alfabeto sânscrito, de construção ideal, compreende 50 letras, tendo, cada uma, pronúncia determinada, invariável. George Bernard Shaw escreveu um ensaio sagaz e, como era de se esperar, satírico, sobre a impropriedade fonética do alfabeto inglês de base latina, no qual 26 letras se esforçam para agüentar, sem êxito, o pesado encargo de indicadoras de sons. Com sua habitual crueza (“Se a introdução de um alfabeto inglês custar uma guerra civil... eu não a lamentarei”), Shaw propunha a adoção urgente de um novo alfabeto de 42 letras (ver seu prefácio ao livro de Wilson O miraculoso nascimento da linguagem, Philosophical Library, N. Y.). Semelhante alfabeto aproximar-se-ia da perfeição fonética do sânscrito, cujo emprego de 50 letras evita erros de pronúncia. (...) Se a teoria hindu da existência extremamente remota do homem civilizado no planeta é correta, torna-se possível explicar por que a mais antiga língua, o sânscrito, é também a mais perfeita (ver capítulo 10). Disse sir William Jones, fundador da Sociedade Asiática: “O sânscrito, seja qual for a sua antiguidade, possui maravilhosa estrutura; mais perfeita que o grego, mais rica que o latim e mais requintada que qualquer das duas”. E afirma a Enciclopédia Americana: “Desde o ressurgimento dos estudos clássicos, não houve acontecimento mais importante na história da cultura que a descoberta do sânscrito (por eruditos ocidentais) nos fins do século 18. A filosofia, a gramática comparada e a ciência da religião... ou devem sua própria existência à descoberta do sânscrito ou foram profundamente influenciadas por seu estudo”.


Capítulo 10, nota nº 1, página 92:


Sânskrita, “polida, completa”. O sânscrito é a irmã mais velha de todas as línguas indo-européias. Seu alfabeto chama-se Devanágari, literalmente, “morada divina”. “Quem conhece a minha gramática, conhece Deus!” Panini, grande filólogo da antiga Índia, prestou esse tributo à perfeição matemática e psicológica do sânscrito. Quem puder retraçar a pista da linguagem até suas origens deve, em verdade, terminar onisciente.”


Cada um dos idiomas derivados é um universo próprio, com expressividade, riqueza vocabular e relação espaço-temporal distintos, sendo apto à expressão de sentimentos, ideias e percepções particulares. Nenhum deles é completo, pleno, todo abarcante. São sempre unilaterais, com vocação e capacidade de expressão específicas, e não raro únicas. Por isso, quando consideramos dois determinados idiomas derivados entre si, pode haver realidades intraduzíveis de um para o outro. Já do sânscrito para os idiomas derivados, pode haver termos adequadamente traduzíveis ou não, variando imensamente conforme o termo considerado e a vocação predominante de cada idioma derivado. O fato é que, às vezes, uma única palavra sânscrita demanda todo um parágrafo para ser traduzida, e, ainda assim, nem sempre se consegue expressar o seu real sentido.


Apenas como curiosidade histórica: o imperador D. Pedro II, entre os inúmeros idiomas que falava e escrevia com fluência (que seriam 14!), era versado também em sânscrito. E para poder estudá-lo satisfatoriamente trouxe ao Brasil um professor estrangeiro qualificado.


Aprender um idioma é desbravar novo universo

A essa altura depreendemos que aprender um idioma implica em aumentar o próprio rol de possibilidades. Cada idioma traz consigo todo um universo de ideias, percepções, sentimentos, atitudes e possibilidades de expressão, aumentando o repertório do indivíduo em todos os sentidos, sejam exteriores, sejam interiores.


Para as pessoas expostas a um único idioma e com vocabulário restrito, há um significante para um significado. No entanto, os poliglotas necessariamente cindem essa relação, expressando a mesma ideia com distintos significantes, o que aumenta exponencialmente as sinapses cerebrais e abre a totalidade do ser a novas realidades.

Embora não de forma tão abrangente quanto ao aprender outro idioma, algo parecido em termos de ampliação de horizontes também sucede quando se aumenta o vocabulário de idioma já dominado.


Relegar populações inteiras à ignorância não apenas lhes sonega a cultura, mas ainda lhes fecha as portas ao desenvolvimento interior, pela ausência de instrumentos para verbalizar o que sentem. É uma forma de cativeiro em que os próprios cativos não têm noção de sua condição, e portanto não se rebelam! Ou seja, algo muito conveniente... Por isso é tão aflitivo observar os jovens de hoje tentando se expressar, em vão, pois desconhecem as palavras que o possibilitariam.


Os primeiros insights sobre as distintas vocações idiomáticas

Tenho um amigo que fala quatro idiomas. Aprendeu em casa o árabe e o português, respectivamente com a mãe libanesa e com o pai brasileiro; depois foi alfabetizado em francês e, na mesma escola, aprendeu a escrever também em português; mais tarde estudou o inglês.


Há muitos anos, quando tive os primeiros insights a respeito do que aqui escrevo, perguntei a esse amigo em que idioma é mais fácil brigar. Entre surpreso e satisfeito por ouvir a pergunta, retrucou: “Eu não acredito que você está me perguntando isso!” Porque muitas vezes já havia tido semelhante percepção – a de que cada idioma é mais adequado a determinada situação –, porém nunca a vira cogitada, verbalizada, e por isso nunca lhe dera a devida atenção.


De minha parte, o que me levou a tal percepção foram cenas de infância, em que via minha avó paterna discutir com os irmãos, sendo todos libaneses. Essas discussões invariavelmente começavam em português e terminavam em árabe, havendo a mudança de idioma a partir do momento em que se tornavam mais ardorosas. Daí o teor da pergunta, pois a sensação que me ficou é a de ser mais fácil brigar em árabe! Outro motivo para a migração de idiomas durante as discussões poderia ser a ocultação do que estava sendo dito, mas isso não invalida a primeira razão, apenas soma-se a ela.


Só recentemente, tornando a tratar deste assunto com o meu amigo poliglota, pude compreender o que de fato acontecia. Segundo ele, falar árabe traz força interior, autoconfiança e autossuficiência; permite mais fácil expressão de sentimentos, porque falando árabe não é possível se dissimular. E isso vale tanto para a mais sublime expressão poética quanto para a mais violenta agressão! Não é à toa que o mesmo idioma que viabilizou a sutilíssima obra de Gibran Khalil Gibran também favorece as infindáveis dissensões nos países de língua árabe!


Meu amigo faz ainda interessante observação, que lanço à reflexão do leitor. Ressalta que sempre enfrenta os momentos de dificuldade pensando em árabe, e que a transição do idioma utilizado para pensar ocorre de forma espontânea, sem intervenção consciente. Ora, o árabe foi aprendido com a mãe libanesa, que a ele assim se dirigia desde a mais tenra infância, enquanto com o pai sempre falava português. Como é a mãe que nos dá a segurança interior, cabendo ao pai prover a segurança exterior, ele indaga se essas características que atribui ao idioma árabe, de favorecer a fortaleza interior, não seriam mais acentuadas no caso dele devido à associação primeva desse idioma com a figura da mãe.


Por fim, trocamos ideias também sobre as prováveis vocações dos demais idiomas por ele falados, e chegamos a consenso, que aqui exponho apenas como ligeira exemplificação e em caráter reducionista, pois isso por si só demandaria texto próprio.

Assim, o inglês parece favorecer a objetividade e as atividades comerciais. Monteiro Lobato usava-o como exemplo para justificar a escassa acentuação que utilizava em seus textos, e que se limitava praticamente aos acentos diferenciais. E não se furtava a criticar o excesso de acentuação no português e no francês, que seriam pouco práticos no cotidiano e nos negócios.


Já o francês parece ser muito apropriado à diplomacia, com a sua característica pronúncia suave e arredondada. Não por coincidência, é um dos três idiomas obrigatórios para postular a carreira no Itamarati (os outros são o inglês e o espanhol). Ainda segundo o meu amigo, falar francês favorece a dissimulação, o que é indispensável para o sucesso de uma negociação, pelo menos em certa medida e em determinados momentos.


Quanto ao português, favorece a expressão artística, a criatividade e o jogo de cintura (flexibilidade), não sendo de admirar que tenhamos tão variadas manifestações musicais, apreciadas no mundo inteiro.


A simultaneidade vigente nos organismos vivos e a relação das partes com o todo

Diferentemente do mundo inanimado, regido pela sucessividade, nos organismos vivos vige a simultaneidade, o que significa que cada uma de suas partes sempre reflete o todo, e que pelas partes pode-se atuar no organismo inteiro. É como observar hologramas, registros tridimensionais de imagens: quando se quebram, cada um dos fragmentos continua apresentando a imagem toda, embora obviamente em tamanho compatível com o tamanho do fragmento.


Nesse contexto, é absolutamente sensato o princípio básico do Tantra, um dos seis sistemas filosóficos do hinduísmo, referindo-se ao universo em que vivemos: “tudo o que está aqui está lá; o que não está aqui, não está em parte alguma”. Ou seja, “tudo está em tudo”, validando por outra fonte o princípio formulado por Hermes Trismegisto: “assim é em cima como é embaixo”. No mesmo sentido há afirmações de Swami Vivekananda, já referido no tópico anterior (“se quer modificar o mundo exterior, modifique-se interiormente”), e de Rudolf Steiner, fundador da antroposofia (“para conhecer o universo, olhe para dentro de si mesmo; para conhecer a si mesmo, olhe para o universo”).


Antes de prosseguir, é preciso fazer oportuno esclarecimento a respeito do Tantra, que tem sido completamente desvirtuado no mundo contemporâneo, sendo apresentado como técnica para incrementar o desempenho e a satisfação sexuais, quando, na verdade, trata-se da disciplina para transformar a atração pelos objetos sensórios em atração por Deus! Isso dá mostra do grau de distorção a que um texto pode ser submetido, seja de forma deliberada ou não, e muitas vezes por deficiência de tradução, como esmiuçaremos mais adiante.


A relação do idioma com o corpo

Uma das grandes dificuldades a quem se lança a aprender novo idioma, ainda mais se for o primeiro após a sua língua nativa, é lograr a pronúncia correta. O aprendiz apenas atinge a perfeita pronúncia quando se dá conta de que as estruturas musculares que necessita movimentar para a pronúncia de outro idioma não são necessariamente as mesmas utilizadas em sua língua natal. Isso conquistado, tudo fica mais fácil no aprendizado do idioma seguinte.


Se nos organismos vivos, como vimos, o sucedido à parte reflete-se no todo, quando alguém utiliza determinada estrutura muscular do aparelho fonador, haverá também determinada repercussão no resto do corpo, o que explica os traços semelhantes na conformação facial dos nativos de um mesmo idioma. E, não bastasse isso, também a coincidência de disposições anímicas, atitudes perante a vida, proporções e posturas corporais etc., que constituem traços comuns ao povo, nação ou país falante de certo idioma.


Comigo ocorreu fenômeno interessante, para o qual até agora não tenho explicação. Há mais de uma década, coloquei aparelhos expansores móveis nas duas arcadas dentárias, o que me causou significativa dificuldade de pronúncia nos idiomas que costumo falar (português, inglês e espanhol). No entanto, nessa mesma época era capaz de cantar músicas em sânscrito com pronúncia perfeita! Como pode ser? Seria o sânscrito ou o fato de cantar que favoreceu a pronúncia, a despeito dos aparelhos?


A língua e as suas abrangentes funções, muitas ainda desconhecidas

Não é à toa que a palavra “língua” também é sinônimo de idioma.

Hoje já se sabe que a língua é o músculo mais forte do corpo, e provavelmente também o de maior mobilidade e flexibilidade. E não apenas isso. Segundo a medicina tradicional chinesa, a língua é a exteriorização do coração! Notem que não se trata de especulação, mas de postulado dessa corrente médica, e que pode ser constatado pela observação, quando se o tem em mente. As implicações dessa assertiva são praticamente infinitas, pois alteram profundamente as premissas adotadas em nosso dia a dia.


Se existe relação direta entre a língua e o coração, e, mais ainda, se a língua é a parcela exteriorizada desse mesmo coração, isso significa que tudo o que dizemos repercute diretamente no coração; não se pode dizer nada a que o coração seja indiferente. Como o coração é o órgão vital por excelência, a própria sede corporal da vitalidade, ouso afirmar que existe a fonte da juventude ou da longevidade, tão arduamente procurada, e esta se chama veracidade. Quando pensamento, palavra, sentimento e ação são congruentes, constituindo uma só realidade, o coração vivifica, e, por extensão, também o corpo todo, do qual ele é o regente. Por outro lado, podemos vislumbrar na dissimulação (aqui compreendida como a ruptura dessa unidade entre pensamento, palavra, sentimento e ação) a causa primeira do envelhecimento precoce.


Ramakrishna, mestre de Swami Vivekananda que viveu na Índia no século XIX, dizia que a grande austeridade para a presente época da humanidade (Kali yuga) é a veracidade. Ora, um rápido olhar nas práticas do mundo contemporâneo, onde mente-se o tempo todo e sob qualquer pretexto, dá ideia do tamanho da encrenca em que está metida a humanidade! Com o agravante de que, ao mentir compulsoriamente ao mundo exterior, o indivíduo perde a capacidade de ser veraz consigo mesmo, em seu diálogo interno, chegando momento em que perde definitivamente a capacidade de distinguir o falso do verdadeiro, favorecendo acentuadamente a ocorrência de enfermidades de degeneração cerebral, hoje tão corriqueiras.


Tal é o poder da palavra, que envolve a própria criação. É onipresente a afirmação das escrituras, recorrente em diversas tradições com ligeiras diferenças que não lhe alteram a essência: “no princípio era o verbo!” Rudolf Steiner chega mesmo a sustentar que, em etapas ainda longínquas do desenvolvimento humano, a função de reprodução dar-se-á pelo órgão então correspondente à laringe. Antes que isso possa ser objeto de piadas, quero lembrar que em eras precedentes da humanidade a reprodução dos seres vivos já foi muito distinta do que é hoje, e inclusive houve etapas em que ainda não existia a reprodução sexuada!


O enigma do idioma basco

Para encerrar esta introdução, já que estamos a tratar de idiomas, sugiro ao leitor buscar informações sobre o idioma basco, chamado “Euskara”, hoje falado apenas em bem delimitada região entre a Espanha e a França.

Sem similitude ou pontos comuns com qualquer outro idioma conhecido, alguns especulam tratar-se de resquício da língua falada em Atlântida, civilização que floresceu no ciclo evolutivo anterior do planeta Terra.

Interessante notar que a identidade nacional do povo basco é gerada em termos estritamente linguísticos: o basco chama a si mesmo “Euskaldun”, "aquele que fala Euskara", e chama a sua terra de “Euskadi” ou “Euskal-herri”, "a terra da língua basca". Em outras palavras, ser basco significa falar a língua basca. É o único povo da Europa com essa característica. Estas informações foram obtidas na internet em março de 2014.


Afinal, a tradução

Depois das considerações introdutórias, enfim chegamos à tradução propriamente dita. E, para começar, convém lembrar o ditado italiano sempre presente ao abordar a tradução: Traduttore, traditore. Vejamos dois comentários a respeito, acessados na internet em fevereiro de 2014:

No endereço www.isolinobraga.tripod.com/id113.html, Isolino de Almeida Braga assevera:

Esta expressão italiana, conhecida por meio mundo, significa “tradutor, traidor”, isto é, quem traduz trai. Os melhores tradutores, competentes e honestos, quando confrontados com expressões que dificilmente podem ser transpostas para outra língua, deturpam, por muito pouco que seja, a ideia que o autor na sua língua original pretendia exprimir.


Já a enciclopédia Wikipédia afirma, no verbete “Tradução”:

Quem desconhece o processo de tradução quase sempre trata o tradutor como mero conhecedor de dois ou mais idiomas. Traduzir vai além disso. Há um famoso jogo de palavras em italiano que diz "Traduttore, Traditore" (em português, "Tradutor, traidor"), pois todo tradutor teria de trair o texto original para conseguir reescrevê-lo na língua desejada.”


Traição ou coautoria?

Serão necessariamente verdadeiras tais afirmações? Será que a traição ao autor é sempre inevitável? Ouso dizer que não! Recordemos por um momento o título deste ensaio (Tradução e Revisão – Traição ou Coautoria?). Vemos que há duas possibilidades para os trabalhos de tradução e revisão. Não apenas a traição acima mencionada, mas também a coautoria. Por que ocorre essa dualidade? Entendo que a ocorrência de uma ou outra situação depende apenas da qualidade do trabalho desenvolvido por tradutores e revisores. Se trabalharem bem, serão sem dúvida coautores; se trabalharem mal, serão traidores.


O melhor a fazer, portanto, ao se defrontar com situações que não podem ser adequadamente transpostas a determinado idioma sem perda de conteúdo e sentido, é lançar mão de notas de tradução ou revisão, procurando expor ao leitor, tão detalhadamente quanto possível, onde residem as dificuldades. Em casos tais, não deve haver receio em abusar das notas, porque elas são a única maneira de compartilhar a situação com o leitor e fazê-lo compreender o que se passa.


E, sempre que possível, tradutor e revisor devem trabalhar em conjunto e ter contato com o autor, porque muitas vezes os críticos literários fazem determinadas interpretações sobre a obra que não têm nenhum fundo de verdade ou que nunca fizeram parte da real motivação para escrevê-la! Guimarães Rosa, por exemplo, mantinha correspondência regular com seus tradutores, também como tantos outros autores. Escolhi mencioná-lo porque o grau de dificuldade envolvido na tradução de suas obras é dos mais elevados, verdadeiro desafio.


O trabalho de revisão merece o mesmo empenho e cuidado devotado à tradução, e as sugestões do revisor devem ser submetidas ao autor, se ainda vivo e sua situação o permitir. Isto porque, hoje em dia, a revisão está se tornando temerária! À medida que as novas tecnologias roubam tempo de leitura da população, as referências para a adequada compreensão de textos são cada vez menores, quase irrisórias, beirando à inanição cultural. Certa vez, em texto sobre as origens antropológicas da democracia, vi a palavra beduíno colocada totalmente fora de contexto. Depois de muito reler o trecho, cheguei à conclusão de que a palavra original era babuíno, substituída porque o revisor, talvez não afeito a textos dessa área, não a conhecia, ou devido à revisão automática sem supervisão qualificada.


Os revisores e os tradutores automáticos e suas implicações quase sempre desastrosas

É imperativo frisar que nem sempre os erros ocorrem por ação deliberada do revisor. A proliferação dos softwares de processamento e editoração de textos com revisão automática pode ser muito útil para a maioria da população, que, infelizmente, não aprendeu a escrever de forma fluente; mas, para quem escreve bem, é faca de dois gumes, pois não raro altera o que está correto, simplesmente porque o dicionário associado ao programa é deficiente ou de outro idioma, ou ainda porque o programa não foi configurado para o idioma em uso e suas especificidades, etc.


Em geral, os dicionários associados à função de correção automática são precários, e exigem que os usuários os aperfeiçoem, mandando incluir as palavras corretas não reconhecidas como tal. Muitas vezes é possível associar aos programas de processamento e editoração de textos dicionários em versão digital, havendo alguns completos e consagrados como o Aurélio ou o Houaiss. Nesse caso, em pretendendo fazê-lo, verificar se a versão utilizada está atualizada para o acordo ortográfico.


O mau uso da revisão automática compromete qualquer trabalho de edição, pois essa função ainda é incipientemente desenvolvida. Mesmo que se supra a disponibilidade de vocabulário pela associação a dicionário digital de qualidade, os revisores automáticos não decodificam adequadamente o texto quando escrito em ordem inversa, e sempre cometem erros de concordância, sejam de número, gênero ou de pessoa, especialmente em períodos longos.


Por isso, a revisão automática somente resulta em verdadeiro auxílio ao trabalho de edição se houver supervisão humana qualificada, e, mesmo assim, quando o programa é configurado para apenas sugerir as correções, implementando-as caso a caso mediante a concordância do usuário. De outra forma, não passa de desastre, condenando o trabalho de revisão a se tornar infindável e sem sentido.


Problemas semelhantes também enfrentam os usuários de tradutores automáticos. Nas vezes em que os experimentei, vertendo textos do português para o inglês, percebi que ainda deixam muito a desejar. Talvez como ponto de partida, a ser necessariamente revisado com supervisão humana qualificada, até sejam de alguma valia, mas nada além disso. Se o idioma de origem está escrito de forma elaborada e culta, muitas vezes o tradutor automático não consegue compreender o texto.


A esse propósito, vem-me à mente o livro “Fax – Mensagens de um futuro próximo”, de autoria do arquiteto e urbanista Jorge Wilheim, que, a par de seu famoso escritório de arquitetura, desempenhou extensa vida pública como secretário de Estado e do município de São Paulo. Trata-se de muito interessante obra de ficção, porém apresentada como fato verídico, em que, no carnaval de 1994, o arquiteto recebe em seu escritório faxes do futuro, de 2024, provenientes de um historiador alemão estudioso do Brasil, conseguindo inclusive lhe responder, também por fax. A personagem faz diversas referências ao uso de tradutores automáticos no processamento dos textos trocados com o sr. Wilheim. Mesmo no futuro, tais aparatos ainda serão insatisfatórios, ocorrendo alguns mal entendidos atribuídos à sua deficiência... Então, o que dizer da situação dos tradutores automáticos de que dispomos hoje?


Existe tradução definitiva?

Penso que jamais haverá tradução definitiva, pelo simples fato de que as acepções correntes das palavras mudam com o tempo, tendo esse processo se acelerado acentuadamente nas três últimas décadas.

O renomado tradutor Fernando Domicildes Carvalho costuma atribuir à tradução a mesma expressão utilizada por Joyce quando se referia às próprias obras: “work in progress” (trabalho em andamento). Ou seja, a tradução precisa ser revista e atualizada periodicamente, pois vai se tornando obsoleta ou cada vez menos compreensível, devido à natural evolução dos idiomas.


Corolário desse fenômeno é a necessidade de, para traduzir adequadamente textos antigos, muitas vezes ter-se de utilizar dicionários também antigos, ainda que não obrigatoriamente contemporâneos à obra em tradução, pois no passado a evolução das acepções ocorria de forma incomparavelmente mais lenta.


No momento estou envolvido com a revisão da tradução do inglês de um texto escrito por volta de 1895, originalmente nesse idioma, pelo monge indiano Swami Vivekananda. Com frequência aparece a palavra “check”, que tem hoje como principais acepções correntes, ”verificar” e “conferir”. Estou utilizando nesse trabalho o dicionário inglês-português da Enciclopédia Barsa de 1964. Ali, essas acepções aparecem bem adiante, respectivamente nas 12º e 13º posições do item IV (como verbo transitivo direto), sendo que as quatro primeiras menções são “fazer parar de repente ou estacar”, “reprimir”, “refrear” e “restringir”, e as três últimas dão o sentido correto.


Portanto, utilizar a acepção hoje corrente de forma automática teria conduzido a erro de tradução. Esse aspecto não pode escapar a quem pretenda efetuar trabalho de tradução ou revisão minimamente qualificado.

Outra decorrência é que o tradutor, quando empreende nova tradução de texto já traduzido, não apenas pode como deve lançar mão, como referência, de outras traduções disponíveis, e isso não constitui plágio, no sentido legal do termo. É, em verdade, condição necessária para que esse eterno “work in progress” de fato progrida.


Obras de edição inviável em contexto comercial

Certos tipos de obras são inviáveis para edição em contexto comercial, devido ao tempo que requerem para a adequada tradução e revisão, tornando muito difícil haver quem se disponha a investir nelas.

Nesse caso encontram-se obras metafísicas, religiosas, ocultistas, metafóricas e de determinados ramos da filosofia, e a solução para viabilizá-las passa, necessariamente, pelo trabalho voluntário qualificado. Bem entendido que apenas trabalho voluntário não basta, se os voluntários não estiverem minimamente qualificados.


Em geral, a edição dessas obras não pode ocorrer em prazo muito exíguo ou estrito, pois o encontro das soluções de tradução adequadas a termos intangíveis às vezes requer tempo considerável. Ademais, por se tratar de trabalho voluntário, em geral os envolvidos conciliam essas atividades editoriais com outras atividades pessoais e profissionais.


Tradução de tradução: tragédia

Como vimos, os diversos idiomas derivados têm expressividades e riquezas vocabulares distintas, além de diferentes relações com o tempo e o espaço.

Ao traduzir texto de idioma mais expressivo para outro menos expressivo, haverá inevitavelmente perda de conteúdo. Se esse texto corrompido for, por sua vez, traduzido, ainda que para idioma de maior expressividade, o conteúdo original continuará irremediavelmente perdido, e o leitor deste último texto estará sendo logrado, comprando gato por lebre.


Por isso, a palavra correta para definir a tradução de tradução é uma só: tragédia!

Talvez o caso mais emblemático das distorções provocadas pela tradução de tradução sejam as obras de Freud. Durante muito tempo, só havia em português textos de Freud traduzidos do inglês. Ora, no original em alemão Freud sempre foi coloquial e espontâneo, falando de forma direta, simples e clara, sem rodeios, o que afrontava vivamente os tabus da época e incomodava as sociedades puritanas.


Ao ser feita a tradução dos originais em alemão ao inglês, essas características de clareza e acessibilidade deliberadamente se perderam, substituídas por um cientificismo artificial que tornou os escritos herméticos e inacessíveis ao público leigo, e talvez também aos especialistas na área. E dessa fonte se fez a primeira tradução ao português, que esteve tanto tempo disponível ao leitor brasileiro. Até que, diante da queixa recorrente de que não havia tradução confiável de Sigmund Freud em português, a Editora Imago passou a editar as suas obras completas, traduzindo-as diretamente do alemão. Houve quem comparasse as duas versões, e a diferença, como era de se esperar, foi da água para o vinho! Ou ainda, melhor dizendo, da água não potável para o bom vinho!


Esse trabalho hercúleo teve o primeiro volume trazido à luz em 2004, havendo então a previsão de se encerrar em 2015. Naquela ocasião, o jornal O Estado de S. Paulo publicou extensa entrevista com o coordenador do grupo de tradutores, o psicanalista Luiz Alberto Hanns (17/10/2004, Caderno 2/Cultura, página D2), valendo a pena destacar as seguintes passagens, que permitem compreender a sua relevância para o campo da tradução (optamos por fazer longas transcrições ao invés de simplesmente mencionar a fonte, pois se trata de texto não disponível na íntegra na internet, salvo para assinantes do jornal – foi mantida a grafia original; pode-se consultar texto do mesmo autor sobre o assunto, embora não tão abrangente, por meio do link http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252004000400023&script=sci_arttext):

Em nosso trabalho introduzimos critérios bastante inovadores, que esperamos possam ser utilizados em traduções de outros autores fora da psicanálise e em outros idiomas, tais como em textos de filosofia e antropologia, nos quais seja preciso levar as diferenças interculturais entre autor e leitor. Por exemplo, valorizamos a semântica contrastiva entre o português e alemão para recuperar as conotações tão fundamentais no alemão de Freud. Em Freud, o colorido conotativo muitas vezes faz parte do conceito. Por exemplo, o mecanismo de “Abfuhr”, traduzido internacionalmente por “descarga”, leva os leitores a entender que se trata de algo que ocorre como um “disparo” ou “rajada”, como se o aparelho psíquico se livrasse do excesso de tensão através de ações impulsivas ou abruptas, enquanto que o termo alemão se refere a descarregar em ritmo de retirada lenta e processual. Freud às vezes emprega o termo “drenagem”. Se trata, portanto, justamente do contrário de uma rajada. Esse tipo de distorção que escapa da tradução mais formal e que altera profundamente a teoria e a clínica foi muito estudado por nós.


Freud é o autor de língua alemã cuja tradução mais se discute e estuda até hoje. Um verdadeiro desafio aos tradutores. Em parte toda essa celeuma em torno da tradução de Freud está ligada ao fato de que ele não é lido, mas estudado, por ângulos muito diversos: filosóficos, teóricos do cinema e literatura, semioticistas, cada um pede atenções diferentes do tradutor, distinguindo determinados termos. Além disso, cada uma das escolas de psicanálise desenvolveu concepções de tradução e terminologias divergentes, criando um verdadeiro cisma no campo. Portanto, nenhuma tradução tem condição de suprir simultaneamente tão diferentes e em parte excludentes “encomendas” de tradução.


A tradução inglesa é uma das mais próximas do estilo fluente e elegante de Freud, mas o problema ao qual você se refere é a terminologia técnica. De fato Freud se servia da visceralidade de diversos termos correntes do alemão e da facilidade combinatória própria do idioma para criar uma terminologia de entendimento imediato e marcante. Por exemplo: palavras como “Drang”, traduzida por “pressão”, ou “Reiz”, traduzido por estímulo, em alemão contêm respectivamente as conotações de “ânsia” e “provocação”. Esse tipo de linguagem torna o texto alemão mais colorido e acessível do que suas traduções. Entretanto, muitas vezes é impossível reproduzir esses efeitos em outros idiomas.


Na tradução inglesa, o projeto oficial de tecnicalizar e medicalizar a linguagem psicanalítica para dar respeitabilidade científica à psicanálise que naquele momento se instalava no ambiente inglês, gerou monstrengos terminológicos como “catexia” em vez de utilizar palavras simples e diretas como “preencher” ou “investir” de energia psíquica. Ou “escopofilia” para dizer “vontade de olhar” ou voyeurismo. Outras traduções, como a argentina, de Etcheverry, um excelente trabalho, em vez de “medicalizar” Freud, peca por “filosofizar” um texto que não é filosófico.


Mas de modo geral as grandes traduções são bem cuidadas, estas escolhas dos tradutores não são erros, são opções das quais podemos discordar, mas cada uma de certa forma toca um lado do elefante. Também a nossa implica escolhas, ganhos e perdas e será passível de críticas.


O que é conceitualmente mais rigoroso? Sempre traduzir o termo por uma mesma palavra, como muitos tradutores propõem, e levar a entendimentos por vezes absurdos, como constatamos em testes com diversos leitores, ou traduzi-la conforme o contexto, identificando para o leitor que se trata sempre da mesma palavra alemã?


De resto, gostaria de ressaltar que o mais importante para reproduzir o estilo de Freud não é a terminologia, mas o texto corrido. E sobre isso fizemos um extenso trabalho de análise e pesquisas com leitores de vários idiomas, testando diversos efeitos, chegando ao já mencionado conceito de erosão de legibilidade, que mostra que uma tradução demasiado grudada à estrutura da frase e à ordem natural de pensamento em alemão, embora seja compreensível em português, cria artificialmente dificuldades de leitura que não existem no alemão.


Pretendemos atingir duas metas: resgatar o prazer de se ler Freud recuperando parte da fluência e do colorido de sua linguagem (quando isto não é possível no texto imediato, elucidamos certos nexos em comentários) e atualizar e refinar as distinções conceituais, criando um corpo de notas que permite diversos tipos de leitura e fornece ao leitor diferentes alternativas terminológicas.”


“Entretanto, claro que toda tradução fica devendo algo ao texto de partida. Contudo, lembremos que mesmo o leitor alemão irá recriar um novo texto diferente daquele que Freud tinha em mente e é importante ressaltar que foram justamente os comentadores estrangeiros que permitiram os maiores avanços na leitura do texto de Freud, pois são capazes de apontar para aspectos que ao leitor alemão parecem tão naturais que deles nem se dá conta. Talvez pudéssemos dizer que em não podendo se ler Freud em alemão, já é um grande passo se as traduções forem críticas e compartilharem com os leitores as alternativas e variantes.


Quem se interessar pela tradução das obras de Freud pode ainda ver o link http://myrtus.uspnet.usp.br/tradterm/site/images/revistas/v19n1/07_pedroheliodoro.pdf , onde encontrará primoroso texto de Pedro Heliodoro de Moraes Branco Tavares, “As novas traduções de Freud feitas diretamente do alemão: estilo e terminologia”.


Traduttore, traditore...

Tendo em mente as distorções que podem acometer as traduções, imaginemos, então, o que é possível fazer com textos metafísicos, religiosos e similares, cujos originais se perderam, ou ainda com aqueles escritos em línguas já mortas... Só Deus sabe qual o sentido original! Havendo interesse em manipulá-los, podem se prestar a quaisquer fins.

Certa vez tive a curiosidade de ir a uma casa de artigos religiosos no centro de São Paulo, e ali passei um bom tempo comparando as diversas edições da Bíblia à venda. A diferença era gritante, saltava aos olhos! Nesse caso, qual delas teria razão, qual delas seria mais verídica ou mais fiel? Difícil, senão quase impossível saber! Nessas situações, pode-se afirmar apenas que tais textos não devem ser interpretados ao pé da letra...


Mas, mesmo não se tratando de tradução, é fácil fazer passar o não dito pelo dito. Em prefácio que escrevi, fiz uma citação de memória e, já tendo sido o livro publicado, reencontrei a passagem citada e descobri que cometera pequeno erro, sem comprometer de forma alguma o sentido do texto. Porém, ao invés de corrigi-lo imediatamente, optei por me servir dele para uma experiência: verificar se alguém me apontaria o erro e, nesse caso, verificar também o tempo decorrido para que isso ocorresse. Lá se vão sete anos, o livro já está na terceira edição, com o erro deliberadamente mantido, e jamais recebi qualquer observação nesse sentido, seja do autor, dos editores ou dos leitores! E reservo-me o direito de não mencionar qual foi o erro de citação ou o livro, a fim de não prejudicar o experimento! Tudo pela ciência!


O desafio da uniformidade

Manter a uniformidade ao longo de uma obra, ou ao longo de diversas obras do mesmo autor, beira ao desafio.

Seja em se tratando de tradução ou revisão, será sempre necessária uma leitura final para uniformizar o vocabulário, estilo, formatação etc., pois os critérios adotados vão se modificando com o andamento do trabalho e a própria interação com a obra.

Às vezes se adota determinada solução com o sentimento de que não é o ideal, mas naquele momento nada diferente nos ocorre. E, de repente, quase no final do trabalho, surge um insight trazendo solução melhor, o que implica em rever todas as situações em que foi utilizada a solução anterior. E é claro que essa revisão será imensamente facilitada pela informática, pois a função “buscar”, quando usada com critério, conduzir-nos-á aos pontos a serem alterados.


Já em se tratando de diversas obras de mesmo autor, a uniformização se transforma em desafio ainda maior.

Assim é que as editoras deveriam contratar sempre o mesmo tradutor para as obras de mesmo autor estrangeiro que editem, pois, tal qual o autor, o tradutor também tem seu estilo, vocabulário predominante etc. Com o revisor acontece o mesmo fenômeno.

O caso concreto de que mais vivamente me recordo é o da autora inglesa Taylor Caldwell. Já li diversos de seus livros históricos, sendo que dois decisivamente me encantaram (“Médico de Homens e de Almas” e “Um Pilar de Ferro”, respectivamente sobre as vidas de São Lucas e do tribuno romano Marco Túlio Cícero), e os outros a que tive acesso pouco me agradaram. Particularmente creio que o estilo dela não poderia variar de forma tão acentuada, então só posso atribuir à tradução a perda que senti na fluência das obras.


Por outro lado, recentemente li a maravilhosa tradução de Carta ao Pai, de Franz Kafka, da lavra do renomado tradutor Modesto Carone, que por sinal está trabalhando na edição das obras completas de Kafka desde 1997. Portanto, parabéns à editora Companhia das Letras, que o está possibilitando. Os leitores agradecem!


Portanto, manter a uniformidade ao longo das traduções de obras de mesmo autor apenas é viável por meio de um único tradutor, devidamente qualificado para trabalhar com o autor em questão. E, de preferência, sempre atuando em conjunto com um mesmo revisor.


Os neologismos: uma necessidade

Nos trabalhos de tradução ou de revisão de tradução, inevitavelmente o profissional se depara com situações em que faltam palavras adequadas para expressar o sentido correto contido no original. Nesses casos, não vejo porque não lançar mão de neologismos, desde que sensatos e devidamente ancorados em notas explicativas quando da primeira ocorrência. Assim se desenvolve a língua!


José Bento Monteiro Lobato, servindo-se da cultura enciclopédica que amealhara, introduziu em nosso idioma infinidades de neologismos, e isso já desde o seu primeiro livro, Urupês, que foi alçado ao panteão do sucesso ao ser objeto de comentário favorável de Rui Barbosa. Segundo relata sua neta, Monteiro Lobato costumava manter em casa um pedestal sobre o qual havia sempre um dicionário aberto. Cada vez que passava por ali, parava e lia sequencialmente algumas palavras, de maneira que adquiriu vocabulário colossal. Diz ainda a neta que ele fez o mesmo com a Enciclopédia Britânica! Portanto, sua vasta cultura não pode ser atribuída somente ao contexto e ao ambiente em que nasceu e foi educado, mas foi também decorrente de tenaz esforço próprio, a que poucas pessoas estariam dispostas!


A Fundação Biblioteca Nacional e os programas de apoio à tradução e à publicação de autores brasileiros no exterior

Recentemente soube de interessantes programas patrocinados pela Fundação Biblioteca Nacional: o “Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior”, que visa “difundir a cultura e a literatura brasileiras no exterior, com a concessão de apoio financeiro à tradução e à publicação, em língua estrangeira, de obras de autores brasileiros no exterior”, tendo como objetivo principal “garantir, parcial ou totalmente, as despesas de editoras com a tradução da obra de autores brasileiros”. Há também o “Programa de Intercâmbio de Autores Brasileiros no Exterior”, que visa “a promoção da cultura e da literatura brasileiras em todo o mundo, por meio da concessão de recursos financeiros que apoiem o custeio das despesas relacionadas à participação de autores brasileiros em eventos literários no exterior”. Informações detalhadas podem ser obtidas no endereço www.bn.br, onde estão disponíveis editais e cartilhas explicativas.


Tudo isso vem em muito boa hora, para propiciar traduções satisfatórias, e, portanto, a possibilidade de sucesso de público no exterior aos autores brasileiros. Seria também importante um programa para trazer ao Brasil os tradutores de autores brasileiros, pois o tradutor precisa conhecer o contexto em que a obra a traduzir foi escrita, a realidade cotidiana do autor. De outra forma, como compreendê-la? E, sem compreendê-la, como traduzi-la a contento?


A revisão de tradução em três etapas

Ao fazer revisão de textos, sempre que possível prefiro trabalhar na versão impressa do que lendo na tela do computador, pois assim é bem mais fácil ter a visão global da obra, além de ocorrer menor desgaste físico e mental. Para tanto, coloco o espaçamento entre as linhas em pelo menos 1,5, de modo que possa escrever à lápis acima das palavras impressas.

O procedimento que observo na revisão de traduções consiste de três leituras:


1) Primeira leitura do texto em português, ainda sem compará-lo ao original, mas já fazendo anotações quanto à ortografia, pontuação, passagens pouco claras, dubiedades, palavras que podem ser substituídas, formatação, tipologia, verificações a efetuar posteriormente no original etc.

2) Segunda leitura do texto em português, agora o confrontando-o com o original e com outras traduções disponíveis. Nesta etapa são desfeitos eventuais equívocos de entendimento do original, é aperfeiçoado o vocabulário e se procura suprimir as palavras e repetições desnecessárias.

3) Terceira leitura do texto em português, para revisar a revisão: verificar se há travessão à esquerda em todas as linhas com ocorrências, repassar as anotações (muitas delas são modificadas ou aclaradas; algumas, suprimidas) e sentir a fluência do texto. Nesta etapa, o original e as outras traduções porventura disponíveis são consultados apenas para tirar dúvidas.


Costumo seguir essas três etapas para cada capítulo, antes de passar ao seguinte. Mas, sendo obra muito complexa e com a qual não estou familiarizado, ainda é necessária a leitura prévia completa da obra. Depois sigo o processo de três etapas para cada capítulo. Na primeira leitura familiarizo-me com o conteúdo, e, a princípio, a tradução pode parecer muito boa. Mas, comparada com o quê? Então, na segunda leitura ocorre o confronto com o original e, eventualmente, outras traduções, e muito do que antes parecia estar bom se mostra deficiente e precisa ser revisto. Por fim, a terceira leitura serve de arremate, para sentir e propiciar fluência, já que não se desce tanto a detalhes e é possível vislumbrar o texto com distanciamento. Conforme o caso, no final ainda pode ser requerida outra leitura completa da obra, agora para uniformização geral.


Quanto às notações do trabalho de revisão, costumo fazer o seguinte:

a) Em todas as linhas em que haja ocorrências haverá um travessão à esquerda.

b) O local da ocorrência na linha estará sempre grifado.

c) Se sobre o local ou palavra grifados houver algo escrito, há duas possibilidades: se a palavra original não estiver também riscada, trata-se apenas de opção a ser avaliada; se a palavra grifada também estiver riscada, é porque precisa ser substituída, e a palavra acima é sugestão para a substituição.

d) Se a palavra estiver grifada e riscada e não houver nada escrito em cima (outra palavra ou remissão a uma nota), é porque se sugere a exclusão.

e) em virtude de haver três etapas de trabalho, a numeração das notas de revisão no rascunho não é necessariamente sequencial, pois podem surgir notas ao longo das três leituras.

Durante o trabalho de revisão, pode-se aproveitar para elaborar glossário de referência, a princípio para uso interno, e que será aumentado e aperfeiçoado na medida em que sejam publicados outros livros do mesmo autor ou de tema similar. Por fim, quando estiver bem completo, tal glossário pode até virar publicação autônoma.


Tradutor e revisor não apenas podem, como devem trabalhar em consonância

De tudo o que vimos até agora, parece cristalina a conclusão de que tradutor e revisor devem trabalhar juntos e em consonância para que seja logrado o melhor resultado, em benefício do público leitor. Somente a atuação conjunta de ambos pode propiciar excelência ao texto final, pois o tradutor sozinho não terá distanciamento suficiente da obra para a autocrítica.


Recomendação para consulta ao verbete “Tradução” da Wikipédia

Recomendo veementemente ao leitor o verbete “Tradução” da enciclopédia Wikipédia, por dispor de texto abrangente, consistente e sensato, que vale a pena ser esmiuçado. Por isso, comento as passagens que julgo mais importantes.

Ninguém pode ser bom tradutor em todas as inúmeras áreas do conhecimento humano. Alguma especialização acaba sendo necessária, senão, como dominar vocabulários e peculiaridades tão distintas e vastas?

Talvez a poesia seja, de fato, a forma literária em que a tradução é a mais desafiadora, pela multiplicidade de aspectos que precisam ser levados em consideração e harmonizados para obtenção de resultado satisfatório (significado, ritmo, rima etc.), além de requerer sensibilidade artística. A tradução de músicas também apresenta dificuldades, pela necessidade de fazer coincidir os acentos tônicos com os acentos musicais.


Vejamos o que diz o texto sobre as qualidades necessárias ao tradutor competente:

- um bom conhecimento da língua, escrita e falada, da qual ele está traduzindo (o idioma de origem);

- um excelente domínio da língua em que ele está traduzindo (a língua-alvo);

familiaridade com o assunto do texto a ser traduzido;

- uma profunda compreensão da etimologia e das expressões idiomáticas correspondentes entre as duas línguas.

O conhecimento da língua-alvo realmente precisa ser maior do que o do idioma de origem. Se o tradutor conhece muito bem este último, mas não tem proficiência no idioma para o qual está traduzindo, o texto ficará insatisfatório, obscuro e sem fluência.

Quanto à familiaridade com o assunto, é indispensável. E aí se conhece o bom profissional, que só aceita trabalhos em áreas onde tem qualificação suficiente.


Por fim, reproduzo adiante o tópico “Preconceitos”, devido à sua clareza e excelente conteúdo:

Supõe-se geralmente que qualquer indivíduo bilíngue é capaz de produzir traduções de documentos satisfatórias, ou mesmo de alta qualidade, simplesmente por serem fluentes numa segunda língua, o que na verdade independe. A capacidade, habilidade e até mesmo os processos mentais básicos necessários para o bilinguismo são fundamentalmente diferentes daqueles necessários para a tradução..

Indivíduos bilíngues são capazes de usar seus próprios pensamentos e ideias, expressá-las oralmente em duas línguas diferentes, com sua língua nativa e com sua segunda língua, às vezes bem o suficiente para falantes nativos dessa segunda língua. Os tradutores devem ser capazes de ler, entender e manter ideias entre as duas línguas e, em seguida, produzir traduções fiéis, completas e sem exclusões, de uma maneira que transmita o significado original de forma eficaz e sem distorções no outro idioma..

Em outras palavras, os tradutores devem ser minuciosos quanto à pureza da ideia e de sua conotação ao passá-las do texto original para a tradução, o que o conhecimento profundo dos mecanismos linguísticos específicos torna possível. Entre os tradutores, é geralmente aceito que as melhores traduções são produzidas por pessoas que estão traduzindo a partir de sua segunda língua para sua língua nativa, pois é raro alguém ter total fluência na segunda língua.


Conclusão

Quando o leitor se defronta com texto fluente e agradável, em geral não faz a menor ideia do trabalho envolvido para chegar a esse resultado. Não basta que o texto tenha sido originalmente bem escrito. Há que conseguir passar pelo processo editorial inteiro preservando essa fluência original, ou então tentando propiciá-la por meio da tradução e da revisão, o que no mundo de hoje é puro desafio.

Nossas homenagens, portanto, a todos aqueles que, no atual panorama apocalíptico em que se encontra a expressão do vernáculo, conseguem apresentar ao público textos fluentes e agradáveis de ler.


(Texto divulgado com permissão do autor)

Avaré, 2014.


Antonio Silvio Curiati - Escritor. Advogado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, com cursos em Economia e Gestão pela Universidade do Porto (Portugal), Desenvolvimento Gerencial pelo Instituto Stand Out., Análise Transacional e Pedagogia Social, entre outros. Experiência profissional nas áreas de marketing, administrativa, político-institucional e jurídica, atuando como advogado e consultor em desenvolvimento humano e organizacional.

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