Tradução e revisão: traição ou coautoria?

Atualizado: 25 de Nov de 2020

Por Antonio Silvio Curiati


Introdução

Antes de entrar na apaixonante questão da tradução e revisão de textos propriamente dita, vamos proceder a ampla introdução multidisciplinar abordando a questão idiomática, pois se trata de premissa sem a qual as infindáveis facetas e nuances da tradução e revisão não podem ser sequer vislumbradas, quanto mais adequadamente compreendidas...


Os idiomas e a capacidade de expressão humana

O mais antigo idioma conhecido – o sânscrito – é também, provavelmente, o idioma primordial da humanidade, aquele do qual todos os demais derivaram e o único capaz de expressar a plenitude e a totalidade humanas, seja na dimensão física, seja na metafísica. Certas sutilezas humanas só podem ser expressadas e compreendidas por meio dele. Ouso mesmo dizer que o sânscrito é processado pelo hemisfério direito do cérebro, proporcionando, portanto, conhecimento direto da realidade expressada, sem necessidade de elaboração intelectual ou racional.

Tecnicamente falando, o sânscrito é considerado a protolíngua ou a língua-mãe apenas das línguas indo-europeias, mas Swami Vivekananda, expoente da milenar filosofia Vedanta no mundo moderno, afirma que dele se originaram todos os demais idiomas.

A razão nos leva a endossar tal afirmação, quando sabemos que o sânscrito possui 46 letras e fonemas, que abrangem todos os sons emissíveis pelo aparelho fonador humano, simplesmente o dobro da disponibilidade fonética da língua portuguesa! Alguns autores se referem a versões do sânscrito com 50 letras, como esclarecido nas transcrições a seguir, extraídas do clássico Autobiografia de um Iogue, de Paramahansa Yogananda (1893-1952), Summus editorial (São Paulo, 1981), na primorosa tradução de Adelaide Petters Lessa (mantida a grafia original):


Capítulo 2, nota nº 6, páginas 31 e 32:

(...) O alfabeto sânscrito, de construção ideal, compreende 50 letras, tendo, cada uma, pronúncia determinada, invariável. George Bernard Shaw escreveu um ensaio sagaz e, como era de se esperar, satírico, sobre a impropriedade fonética do alfabeto inglês de base latina, no qual 26 letras se esforçam para agüentar, sem êxito, o pesado encargo de indicadoras de sons. Com sua habitual crueza (“Se a introdução de um alfabeto inglês custar uma guerra civil... eu não a lamentarei”), Shaw propunha a adoção urgente de um novo alfabeto de 42 letras (ver seu prefácio ao livro de Wilson O miraculoso nascimento da linguagem, Philosophical Library, N. Y.). Semelhante alfabeto aproximar-se-ia da perfeição fonética do sânscrito, cujo emprego de 50 letras evita erros de pronúncia. (...) Se a teoria hindu da existência extremamente remota do homem civilizado no planeta é correta, torna-se possível explicar por que a mais antiga língua, o sânscrito, é também a mais perfeita (ver capítulo 10). Disse sir William Jones, fundador da Sociedade Asiática: “O sânscrito, seja qual for a sua antiguidade, possui maravilhosa estrutura; mais perfeita que o grego, mais rica que o latim e mais requintada que qualquer das duas”. E afirma a Enciclopédia Americana: “Desde o ressurgimento dos estudos clássicos, não houve acontecimento mais importante na história da cultura que a descoberta do sânscrito (por eruditos ocidentais) nos fins do século 18. A filosofia, a gramática comparada e a ciência da religião... ou devem sua própria existência à descoberta do sânscrito ou foram profundamente influenciadas por seu estudo”.

Capítulo 10, nota nº 1, página 92:

Sânskrita, “polida, completa”. O sânscrito é a irmã mais velha de todas as línguas indo-européias. Seu alfabeto chama-se Devanágari, literalmente, “morada divina”. “Quem conhece a minha gramática, conhece Deus!” Panini, grande filólogo da antiga Índia, prestou esse tributo à perfeição matemática e psicológica do sânscrito. Quem puder retraçar a pista da linguagem até suas origens deve, em verdade, terminar onisciente.”

Cada um dos idiomas derivados é um universo próprio, com expressividade, riqueza vocabular e relação espaço-temporal distintos, sendo apto à expressão de sentimentos, ideias e percepções particulares. Nenhum deles é completo, pleno, todo abarcante. São sempre unilaterais, com vocação e capacidade de expressão específicas, e não raro únicas. Por isso, quando consideramos dois determinados idiomas derivados entre si, pode haver realidades intraduzíveis de um para o outro. Já do sânscrito para os idiomas derivados, pode haver termos adequadamente traduzíveis ou não, variando imensamente conforme o termo considerado e a vocação predominante de cada idioma derivado. O fato é que, às vezes, uma única palavra sânscrita demanda todo um parágrafo para ser traduzida, e, ainda assim, nem sempre se consegue expressar o seu real sentido.

Apenas como curiosidade histórica: o imperador D. Pedro II, entre os inúmeros idiomas que falava e escrevia com fluência (que seriam de 14 a 17), era versado também em sânscrito. E para poder estudá-lo satisfatoriamente trouxe ao Brasil um professor estrangeiro qualificado.


Aprender um idioma é desbravar novo universo

A essa altura depreendemos que aprender um idioma implica em aumentar o próprio rol de possibilidades. Cada idioma traz consigo todo um universo de ideias, percepções, sentimentos, atitudes e possibilidades de expressão, aumentando o repertório do indivíduo em todos os sentidos, sejam exteriores, sejam interiores.

Para as pessoas expostas a um único idioma e com vocabulário restrito, há um significante para um significado. No entanto, os poliglotas necessariamente cindem essa relação, expressando a mesma ideia com distintos significantes, o que aumenta exponencialmente as sinapses cerebrais e abre a totalidade do ser a novas realidades.

Embora não de forma tão abrangente quanto ao aprender outro idioma, algo parecido em termos de ampliação de horizontes também sucede quando se aumenta o vocabulário de idioma já dominado.

Relegar populações inteiras à ignorância não apenas lhes sonega a cultura, mas ainda lhes fecha as portas ao desenvolvimento interior, pela ausência de instrumentos para verbalizar o que sentem. É uma forma de cativeiro em que os próprios cativos não têm noção de sua condição, e, portanto, não se rebelam! Ou seja, algo muito conveniente... Por isso é tão aflitivo observar os jovens de hoje tentando se expressar, em vão, pois desconhecem as palavras que o possibilitariam.


Os primeiros insights sobre as distintas vocações idiomáticas

Tenho um amigo que fala quatro idiomas. Aprendeu em casa o árabe e o português, respectivamente com a mãe libanesa e com o pai brasileiro; depois foi alfabetizado em francês e, na mesma escola, aprendeu a escrever também em português; mais tarde estudou o inglês.

Há muitos anos, quando tive os primeiros insights a respeito do que aqui escrevo, perguntei a esse amigo em que idioma é mais fácil brigar. Entre surpreso e satisfeito por ouvir a pergunta, retrucou: “Eu não acredito que você está me perguntando isso!” Porque muitas vezes já havia tido semelhante percepção – a de que cada idioma é mais adequado a determinada situação –, porém nunca a vira cogitada, verbalizada, e por isso nunca lhe dera a devida atenção.

De minha parte, o que me levou a tal percepção foram cenas de infância, em que via minha avó paterna discutir com os irmãos, sendo todos libaneses. Essas discussões invariavelmente começavam em português e terminavam em árabe, havendo a mudança de idioma a partir do momento em que se tornavam mais ardorosas. Daí o teor da pergunta, pois a sensação que me ficou é a de ser mais fácil brigar em árabe! Outro motivo para a migração de idiomas durante as discussões poderia ser a ocultação do que estava sendo dito, mas isso não invalida a primeira razão, apenas soma-se a ela.

Só recentemente, tornando a tratar deste assunto com o meu amigo poliglota, pude compreender o que de fato acontecia. Segundo ele, falar árabe traz força interior, autoconfiança e autossuficiência; permite mais fácil expressão de sentimentos, porque falando árabe não é possível se dissimular. E isso vale tanto para a mais sublime expressão poética quanto para a mais violenta agressão! Não é à toa que o mesmo idioma que viabilizou a sutilíssima obra de Gibran Khalil Gibran também favorece as infindáveis dissensões nos países de língua árabe!

Meu amigo faz ainda interessante observação, que lanço à reflexão do leitor. Ressalta que sempre enfrenta os momentos de dificuldade pensando em árabe, e que a transição do idioma utilizado para pensar ocorre de forma espontânea, sem intervenção consciente. Ora, o árabe foi aprendido com a mãe libanesa, que a ele assim se dirigia desde a mais tenra infância, enquanto com o pai sempre falava português. Como é a mãe que nos dá a segurança interior, cabendo ao pai prover a segurança exterior, ele indaga se essas características que atribui ao idioma árabe, de favorecer a fortaleza interior, não seriam mais acentuadas no caso dele devido à associação primeva desse idioma com a figura da mãe.

Por fim, trocamos ideias também sobre as prováveis vocações dos demais idiomas por ele falados, e chegamos a consenso, que aqui exponho apenas como ligeira exemplificação e em caráter reducionista, pois isso por si só demandaria texto próprio.

Assim, o inglês parece favorecer a objetividade e as atividades comerciais. Monteiro Lobato usava-o como exemplo para justificar a escassa acentuação que utilizava em seus textos, e que se limitava praticamente aos acentos diferenciais. E não se furtava a criticar o excesso de acentuação no português e no francês, que seriam pouco práticos no cotidiano e nos negócios.

Já o francês parece ser muito apropriado à diplomacia, com a sua característica pronúncia suave e arredondada. Não por coincidência, é um dos três idiomas obrigatórios para postular a carreira no Itamarati (os outros são o inglês e o espanhol). Ainda segundo o meu amigo, falar francês favorece a dissimulação, o que é indispensável para o sucesso de uma negociação, pelo menos em certa medida e em determinados momentos.

Quanto ao português, favorece a expressão artística, a criatividade e o jogo de cintura (flexibilidade), não sendo de admirar que tenhamos tão variadas manifestações musicais, apreciadas no mundo inteiro.


A simultaneidade vigente nos organismos vivos e a relação das partes com o todo

Diferentemente do mundo inanimado, regido pela sucessividade, nos organismos vivos vige a simultaneidade, o que significa que cada uma de suas partes sempre reflete o todo, e que pelas partes pode-se atuar no organismo inteiro. É como observar hologramas, registros tridimensionais de imagens: quando se quebram, cada um dos fragmentos continua apresentando a imagem toda, embora obviamente em tamanho compatível com o tamanho do fragmento.

Nesse contexto, é absolutamente sensato o princípio básico do Tantra, uma das inúmeras tradições religiosas existentes na Índia, referindo-se ao universo em que vivemos: “tudo o que está aqui está lá; o que não está aqui, não está em parte alguma”. Ou seja, “tudo está em tudo”, validando por outra fonte o princípio formulado por Hermes Trismegisto: “assim é em cima como é embaixo”. No mesmo sentido há afirmações de Swami Vivekananda, já referido no tópico anterior (“se quer modificar o mundo exterior, modifique-se interiormente”), e de Rudolf Steiner, fundador da antroposofia (“para conhecer o universo, olhe para dentro de si mesmo; para conhecer a si mesmo, olhe para o universo”).

Antes de prosseguir, é preciso fazer oportuno esclarecimento a respeito do Tantra, que tem sido completamente desvirtuado no mundo contemporâneo, sendo apresentado como técnica para incrementar o desempenho e a satisfação sexuais, quando, na verdade, trata-se da disciplina para transformar a atração pelos objetos sensórios em atração por Deus! Isso dá mostra do grau de distorção a que um texto pode ser submetido, seja de forma deliberada ou não, e muitas vezes por deficiência de tradução, como esmiuçaremos mais adiante.


A relação do idioma com o corpo

Uma das grandes dificuldades a quem se lança a aprender novo idioma, ainda mais se for o primeiro após a sua língua nativa, é lograr a pronúncia correta. O aprendiz apenas atinge a perfeita pronúncia quando se dá conta de que as estruturas musculares que necessita movimentar para a pronúncia de outro idioma não são necessariamente as mesmas utilizadas em sua língua natal. Isso conquistado, tudo fica mais fácil no aprendizado do idioma seguinte.

Se nos organismos vivos, como vimos, o sucedido à parte reflete-se no todo, quando alguém utiliza determinada estrutura muscular do aparelho fonador, haverá também determinada repercussão no resto do corpo, o que explica os traços semelhantes na conformação facial dos nativos de um mesmo idioma. E, não bastasse isso, também a coincidência de disposições anímicas, atitudes perante a vida, proporções e posturas corporais etc., que constituem traços comuns ao povo, nação ou país falante de certo idioma.

Comigo ocorreu fenômeno interessante, para o qual até agora não tenho explicação. Há mais de uma década, coloquei aparelhos expansores móveis nas duas arcadas dentárias, o que me causou significativa dificuldade de pronúncia nos idiomas que costumo falar (português, inglês e espanhol). No entanto, nessa mesma época era capaz de cantar músicas em sânscrito com pronúncia perfeita! Como pode ser? Seria o sânscrito ou o fato de cantar que favoreceu a pronúncia, a despeito dos aparelhos?


A língua e as suas abrangentes funções, muitas ainda desconhecidas

Não é à toa que a palavra “língua” também é sinônimo de idioma.

Hoje já se sabe que a língua é o músculo mais forte do corpo, e provavelmente também o de maior mobilidade e flexibilidade. E não apenas isso. Segundo a medicina tradicional chinesa, a língua é a exteriorização do coração! Notem que não se trata de especulação, mas de postulado dessa corrente médica, e que pode ser constatado pela observação, quando se o tem em mente. As implicações dessa assertiva são praticamente infinitas, pois alteram profundamente as premissas adotadas em nosso dia a dia.

Se existe relação direta entre a língua e o coração, e, mais ainda, se a língua é a parcela exteriorizada desse mesmo coração, isso significa que tudo o que dizemos repercute diretamente no coração; não se pode dizer nada a que o coração seja indiferente. Como o coração é o órgão vital por excelência, a própria sede corporal da vitalidade, ouso afirmar que existe a fonte da juventude ou da longevidade, tão arduamente procurada, e esta se chama veracidade. Quando pensamento, palavra, sentimento e ação são congruentes, constituindo uma só realidade, o coração vivifica, e, por extensão, também o corpo todo, do qual ele é o regente. Por outro lado, podemos vislumbrar na dissimulação (aqui compreendida como a ruptura dessa unidade entre pensamento, palavra, sentimento e ação) a causa primeira do envelhecimento precoce.

Ramakrishna, mestre de Swami Vivekananda que viveu na Índia no século XIX, dizia que a grande austeridade para a presente época da humanidade (Kali yuga) é a veracidade. Ora, um rápido olhar nas práticas do mundo contemporâneo, onde mente-se o tempo todo e sob qualquer pretexto, dá ideia do tamanho da encrenca em que está metida a humanidade! Com o agravante de que, ao mentir compulsoriamente ao mundo exterior, o indivíduo perde a capacidade de ser veraz consigo mesmo, em seu diálogo interno, chegando momento em que perde definitivamente a capacidade de distinguir o falso do verdadeiro, favorecendo acentuadamente a ocorrência de enfermidades de degeneração cerebral, hoje tão corriqueiras.

Tal é o poder da palavra, que envolve a própria criação. É onipresente a afirmação das escrituras, recorrente em diversas tradições com ligeiras diferenças que não lhe alteram a essência: “no princípio era o verbo!” Rudolf Steiner chega mesmo a sustentar que, em etapas ainda longínquas do desenvolvimento humano, a função de reprodução dar-se-á pelo órgão então correspondente à laringe. Antes que isso possa ser objeto de piadas, quero lembrar que em eras precedentes da humanidade a reprodução dos seres vivos já foi muito distinta do que é hoje, e inclusive houve etapas em que ainda não existia a reprodução sexuada!


O enigma do idioma basco

Para encerrar esta introdução, já que estamos a tratar de idiomas, sugiro ao leitor buscar informações sobre o idioma basco, chamado “Euskara”, hoje falado apenas em bem delimitada região entre a Espanha e a França.

Sem similitude ou pontos comuns com qualquer outro idioma conhecido, alguns especulam tratar-se de resquício da língua falada em Atlântida, civilização que floresceu no ciclo evolutivo anterior do planeta Terra.

Interessante notar que a identidade nacional do povo basco é gerada em termos estritamente linguísticos: o basco chama a si mesmo “Euskaldun”, "aquele que fala Euskara", e chama a sua terra de “Euskadi” ou “Euskal-herri”, "a terra da língua basca". Em outras palavras, ser basco significa falar a língua basca. É o único povo da Europa com essa característica. Estas informações foram obtidas na internet em março de 2014.


Afinal, a tradução

Depois das considerações introdutórias, enfim chegamos à tradução propriamente dita. E, para começar, convém lembrar o ditado italiano sempre presente ao abordar a tradução: Traduttore, traditore. Vejamos dois comentários a respeito, acessados na internet em fevereiro de 2014:

No endereço www.isolinobraga.tripod.com/id113.html, Isolino de Almeida Braga assevera:

Esta expressão italiana, conhecida por meio mundo, significa “tradutor, traidor”, isto é, quem traduz trai. Os melhores tradutores, competentes e honestos, quando confrontados com expressões que dificilmente podem ser transpostas para outra língua, deturpam, por muito pouco que seja, a ideia que o autor na sua língua original pretendia exprimir.

Já a enciclopédia Wikipédia afirma, no verbete “Tradução”:

Quem desconhece o processo de tradução quase sempre trata o tradutor como mero conhecedor de dois ou mais idiomas. Traduzir vai além disso. Há um famoso jogo de palavras em italiano que diz "Traduttore, Traditore" (em português, "Tradutor, traidor"), pois todo tradutor teria de trair o texto original para conseguir reescrevê-lo na língua desejada.”